segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Reler Hilary Putnam

Hilary Putnam deve ser dos filósofos, senão mesmo o filósofo de expressão em língua inglesa da segunda metade do século xx, mais amplamente traduzido para português. Possivelmente por ser um caso isolado em matéria de tradução, e não fazendo escola a tradução de livros dos seus pares, muitas das vezes os conceitos são mal traduzidos, o que acaba por confundir não só a compreensão como também o estilo do próprio autor. Seja como for, num país com uma escala filosófica bastante reduzida (pelo menos antes da internet, já que uma boa parte destas traduções é anterior ao acesso generalizado á rede e ao consumo online) é salutar ter acesso na nossa língua a uma variedade considerável de livros de Putnam. Eles aparecem por via da publicação de diferentes editoras.

A produção de Putnam foi enormíssima com contributos para diferentes áreas da filosofia. É difícil delimitar uma área de maior intervenção, muito embora o maior conjunto dos seus trabalhos sejam nas áreas da filosofia da mente, ação, epistemologia e metafísica. Sempre foi um filósofo que produziu muito e mudou muitas vezes de argumentos e interesse. Deixo aqui a referência a algumas das traduções que ainda se encontram à venda nas livrarias. E com algum esforço ainda se encontram as traduções da D. Quixote, já dos anos 90 do século xx. 





domingo, 8 de janeiro de 2017

Bibliografia breve da identidade


Este mês ficou marcado na filosofia com o desaparecimento de Derek Parfit, o filósofo inglês. No meu tempo de Universidade nunca ouvi falar em tal nome. Conheci-o muito mais tarde e ainda só o conheço quase por referências indiretas. A vida de um professor de secundário dificilmente se compatibiliza com o estudo aturado de um só autor ou problema. Além disso há poucas traduções de Parfit em português. Assim, só se fica a saber que que se trata de um influente filósofo, mas sem perceber muito bem por quê. Bem, para o mero curioso não profissional da filosofia, talvez isso seja suficiente. Eu também não percebo a relevância de todas as teorias científicas que vou aprendendo, mas começo por aceitar alguma autoridade dos autores de bons livros de divulgação. Para colmatar essa lacuna e investir um pouco mais, vou aqui resumir uma pequena bibliografia para que se compreenda um pouco melhor um problema do qual Parfit se ocupou e avançou novos argumentos. Estou a falar do problema da identidade pessoal. Melhor que as minhas palavras é ler alguma coisa e ficar mais informado. Assim, e do que está disponível em português:

James Rachels, Problemas da Filosofia, Gradiva, Trad. Pedro Galvão. Todo o capítulo 5 é dedicado ao problema e segue de perto o seminal Reasons and persons de Derek Parfit. Melhor e mais clara introdução que esta, em língua portuguesa, não conheço.

Earl Conee e Theodore Sider, Enigmas da Existência, Uma visita guiada à metafísica, Bizâncio, Trad. Vítor Guerreiro. O capítulo 1 é uma boa introdução ao problema. A par com a de James Rachels forma o melhor duo em língua portuguesa para começar a matutar no problema.

Pedro Galvão fez-nos o favor de traduzir o primeiro artigo de Parfit sobre o problema da identidade pessoal, que podemos encontrar aqui: TRADUÇÃO


Existe um excerto muito interessante para ler na Crítica traduzido por Galvão, de Reasons and Persons, AQUI

E temos aqui este vídeo que está muito divertido e claro. Basta acionar as legendas. Não são muito boas, mas entende-se mais ou menos sem atropelos:


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Editora Piaget com Grandes Noções da Filosofia

Se há dado que temos consumado é a divisão da filosofia a partir dos finais do século xix naquela que ficou entretanto conhecida por filosofia analítica por oposição à chamada filosofia continental. Não interessa aqui entrar de novo nesse debate já muito escrutinado. Se aplicássemos aqui vagamente as ideias de Kuhn relativamente à história da ciência, diríamos que provavelmente a filosofia atravessa a fase da “guerra” de paradigmas. Isto vem ao caso porque em regra esta divisão também acaba por se refletir e muito quando pegamos em livros de caráter mais geral, como dicionários, histórias da filosofia, etc… arrisco a afirmar que hoje em dia essas obras quando chegadas da tradição analítica falham menos que as da tradição continental. Isto é, as da tradição analítica são mais abrangentes. E a isto não está alheio o sucesso em matéria de investigação, se quisermos, do seu “paradigma”, para abusar dos termos de Kuhn. Este mote serve para a minha pequena apresentação deste extenso volume publicado pela Piaget no ano de 2003 e sendo o original em francês do ano anterior. Independentemente do conteúdo que não me é possível comentar de todo (é uma obra de consulta com mais de 1200 páginas na edição portuguesa), vale a pena apresentar em algumas palavras a sua organização.  Assim, para começar, as grandes noções mencionadas no título da obra, são as clássicas: consciência, direito, estado, história, imaginação, tempo, ciência, moral, metafísica, arte, linguagem, etc.. Cada tema corresponde a um capítulo e cada capítulo está organizado não só com a habitual exploração do subtema, como com os textos clássicos comentados. Para quem, como eu, está já acostumado com o modo de fazer filosofia da tradição analítica, não espere destes textos a clareza de exploração dos problemas no sistema de: problema, teorias, argumentos, objeções. Nem espere grandes análises aos problemas pelo binóculo da lógica. Não se segue daí, com efeito, que os textos fossem escritos por uma quantidade de discípulos de Nietzsche recorrendo a uma linguagem demasiado fechada e hermética. Aliás, por sinal, isto também acontece não raras vezes com filósofos da tradição analítica. Embora seja evidente que prezam muito mais a clareza da exposição nem todos, ainda assim, o conseguem fazer devido mais ao estilo da escrita do que à confusão argumentativa.

E a quem interessa este livro?
A todos, menos àqueles cujo contato com a filosofia passa apenas por uma ou duas pequenas introduções, já que no mercado português existe essa oferta.

Uma nota final
Pese embora o que comecei por esboçar neste pequeno texto de apresentação, não se pense que os autores presentes nesta coletânea revelam uma qualquer postura de ignorância relativamente aos cozinhados da tradição analítica. Nem pensar. Como se revela na leitura de pelo menos alguns dos artigos, são autores informados. Mas ao mesmo tempo é bem verdade que apenas pontualmente alguns estudos mais recentes sobre os problemas analisados são citados. E, na minha opinião, deviam ter maior lugar de destaque. Não dou aqui qualquer exemplo específico, já que esta circunstância está presente em todos os capítulos do livro. Alem de que as bibliografias citadas revelam esse mesmo esquecimento que, na minha opinião, empobrece a exploração dos problemas.

A edição portuguesa é de capa dura e num formato físico muito resistente. O que favorece a obra. Um belo livro de filosofia, portanto. 
Agradeço ao editor o envio desta obra para análise e opinião.


Autores Vários, As Grandes Noçõesda Filosofia, Ed Piaget, 2003, Tradução de Ana Rabaça, Coleção Pensamento e Filosofia (Direção de António Oliveira Cruz) 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Qual a diferença entre determinismo moderado (compatibilismo) e libertismo?

A diferença explica-se pelo critério da liberdade de escolha (condição do livre arbítrio)

Teoria
Critério diferenciador
Incompatibilista





Libertismo



Ausência de causalidade. O determinismo causal não se aplica à nossa capacidade de escolha
Compatibilista


Determinismo moderado
Ausência de coação, mas não de causalidade. As nossas ações estão causalmente determinadas, mas desde que não exista coação, doença ou qualquer tipo de controlo artificial, ainda assim temos capacidade de escolha.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Definir conceitos, espírito crítico e liberdade de pensamento

Um texto meu publicado no FN. AQUI


Propostas de reformulação de programa de filosofia

Este post serve para criar links às propostas que entretanto vão chegando às redes e canais online. Entretanto por erro meu publiquei duas vezes a minha proposta e acabei a eliminar sem querer um comentário com uma proposta de um colega e não consegui recuperar o comentário. Peço desculpa por isso. Foi sem intenção, pois todos os comentários são preciosos. Sem isso não conseguimos maior clareza nas nossas próprias propostas, pois é impossível, na minha opinião, elaborar uma qualquer proposta sem o reconhecimento de quem executa os programas de ensino, os professores.

Proposta do Domingos Faria, AQUI
Proposta do Aires Almeida, AQUI
Proposta de Rolando Almeida, AQUI

Assim que chegarem, mais propostas serão adicionadas.

Participação pública informal na reforma do programa de Filosofia

Alguns professores de filosofia têm manifestado nas redes sociais ou nos fóruns ideias interessantes para a abordagem a uma eventual reformulação do programa de filosofia. Muitos desses colegas não disponibilizam canais para publicarem as suas ideias. Assim, disponibilizo este blogue para quem quiser publicar a sua proposta. Assim, promovemos o debate mais alargado enquanto continuamos as nossas vidas particulares. Peço apenas que me enviem para o meu email os vossos textos para publicar com o respetivo nome de autor. Não há qualquer requisito de formatação de texto.

Email: rolandotavaresalmeida@gmail.com

domingo, 20 de novembro de 2016

Uma proposta para reformulação do programa de filosofia

Recentemente saiu uma notícia no Jornal Público sobre uma eventual revisão curricular dos ensinos básico e secundário. Segundo foi noticiado o principal objetivo é dar razão a uma velha reivindicação dos professores encurtando os conteúdos a explorar nos currículos das diversas disciplinas. O lado menos bom da notícia citada é que algumas entidades oficiais com responsabilidade na matéria estariam a ser ignoradas pelo Ministério. Ora discordo que o Ministério decida sobre um programa ignorando quer as associações instituídas ao nível científico, quer profissional. Por isso mesmo um programa elaborado ou reformulado por apenas uma parte é, quanto a mim, uma péssima ideia. Mas mantenho a esperança que as coisas não se passem a esse nível e espero também que o resultado de uma revisão do programa de filosofia seja o resultado do diálogo entre quem melhor representa os professores e quem representa a disciplina academicamente. Neste momento as instituições melhor posicionadas para esse efeito na disciplina de filosofia são a APF e a SPF.
Pressupondo que os professores gostam e querem ser ouvidos nesta matéria, enquanto professor quero deixar a minha proposta. Ela é apenas uma ideia, feita com o tempo de que disponho e vai ser montada sobre a proposta que Aires Almeida fez aqui. Portanto vou trabalhar a partir do programa e da proposta do Aires.

Algumas ideias para começar.
Reformular em vez de destruir o trabalho feito
Não defendo que se deva fazer um programa novo. O programa atual tem pontos positivos e outros que podem ser melhorados. E esta vai ser a linha condutora para a minha breve apresentação.

Pontos a manter no programa:
O programa de filosofia é elaborado em torno de problemas e não de filósofos ou filosofias. E assim deve ser mantido. Por um lado dá alguma liberdade ao professor, o que é sempre de esperar num programa de ensino, pelo menos de filosofia. Por outro lado, o que interessa na filosofia são mais os problemas e não propriamente a exposição das teorias dos autores, ainda que não se satisfaça a primeira condição com a ausência da segunda.

Pontos a reformular no programa:
Em primeiro lugar parece-me urgente depurar toda a terminologia do programa. E tenho uma razão para assim pensar. É que a linguagem do programa é transportada para os manuais, já que os mesmos seguem naturalmente o programa. Ora, o indice dos manuais, diz-me a experiência, é ilegível para os alunos e perdemos imenso tempo a traduzir. Ou então ignoramos. Não há qualquer vantagem em traduzir. Se podemos chamar as coisas com outros nomes e com o mesmo rigor, porque não adotar essa segunda opção com a preocupação de tornar a tábua das matérias mais legível para os alunos? Dou aqui apenas alguns exemplos:

Como aparece no programa
Proposta de substituição
Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar
O que é a filosofia?
Dimensão discursiva do trabalho filosófico
Caixa de ferramentas da filosofia
A ação humana – Análise e compreensão do agir
Filosofia da ação
Os valores – Análise e compreensão da experiência valorativa
Os valores
Valores e valoração- A questão dos critérios valorativos
O problema da objetividade de juízos de valor
A dimensão ética-política – Análise e compreensão da experiência convivencial
Filosofia política
Temas/ problemas do mundo contemporâneo
Problemas da filosofia

O quadro que apresento é apenas uma demonstração da depuração que pode ser feita. Estou convencido que tem amplas vantagens didáticas sem com isso criar qualquer prejuízo científico. Bem pelo contrário. E outra opção que me parece ser igualmente válida é apresentar os conteúdos como problemas. Assim, em vez de filosofia da ação, poderia constar: O que é uma ação? Ou, Será que todos os acontecimentos são ações? Bem mas ainda assim, isto pode ser igualmente feito mesmo com a proposta que apresento no quadro, já que um tema da filosofia pode ser apresentado com diferentes problemas.
Em relação à proposta do Aires, uma alteração de fundo. A lógica desaparece do 11º ano e desaparece grandemente de todo o programa da disciplina. Só faz sentido ensinar lógica como o Aires propõe se depois ela for aplicada ao longo de todo o programa. Mas a avaliar pelos manuais isso quase nunca acontece. O que me leva a pensar que uma grande maioria dos professores não tem optado por ensinar filosofia da ciência ou do conhecimento no 11º ano com as bases da lógica. E aqui penso que não vale a pena apresentar um programa que só num ponto varre a maré toda. Depois há outro ponto que me parece crucial. Vamos considerar que o professor pode ajustar mais ou menos a lógica que o aluno aprende ao restante programa. E penso que esse deve ser o efeito do ensino da lógica, caso contrário, empobrece o seu próprio ensino. Mesmo que um professor tenha essa opção, como faz no 10º ano? Ensina filosofia da arte, religião, ação sem esses conhecimentos e aplicação da lógica e depois no 11º ano passa a usar essa ferramenta? Ou seja, ou a lógica aparece logo na tal “dimensão discursiva do trabalho filosófico” no 10º ano ou não aparece em lado algum quer do 10º, quer do 11º ou então, em última análise e que me parece ser a pior das possibilidades, aparece apenas como mera curiosidade e para fornecer ao estudante algum conhecimento de como se faz filosofia. Posto isto, qual a minha proposta?
A minha proposta é que a lógica saia do programa de filosofia, para dar lugar no 10º ano, a uma pequena introdução à metodologia filosófica que pode e deve incluir breves noções de lógica. Nessas breves noções, o que deve ser incluído? Vou elencar aqui, sem grandes preocupações de fundo, o que me parece mais universal e essencial:

·         O que é um argumento?
·         Identificar argumentos
·         Composição de um argumento
·         Premissas e conclusão
·         Lógica formal e informal – validade dedutiva e indutiva
·         Validade e verdade
·         Validade
·         Solidez
·         Cogência
·         Refutações
·         Definição de conceitos e sua importância (vagueza e precisão)

Esta alteração implica já uma reformulação quer ao programa, quer à proposta do Aires. Talvez o requisito mais rígido que proponho para esta reforma seja o de que todo o programa, quer de 10º, quer de 11º tem de andar em torno desta ideia:

1.       Apresentação de problemas
2.       Defesa de teorias
3.       Discussão de argumentos

Um aspeto que a proposta do Aires não refere é a capacidade de execução didática do programa. Nem o programa é muito centrado nessa preocupação. Se por um lado é verdade que esse é o trabalho que os professores desenvolvem nos grupos disciplinares, também é verdade que o programa se pode centrar aí. Afinal o que se pretende de um programa não é somente o que se quer ensinar, mas a forma como se aprende o que se pretende ensinar. Vou tentar aqui esboçar um pequeno exemplo:
Unidade: Filosofia da Arte
Problema: Pode a arte ser definida?
Estratégias a seguir
Conteúdos a explorar:
·         Teoria da imitação e refutações
·         Teoria da expressão e refutações
·         Teoria formalista e refutações
1.       Apresentação do problema
2.       Tentativa de encontrar soluções para o problema com a discussão das teorias propostas pelos alunos. Como podem os alunos propor teorias?
·         Trabalho de grupo (20m de discussão)
·         Discussão individual (45 m)
·         Cada aluno tenta individualmente e em 20 m escrever uma resposta ao problema elencando sempre as razões que justificam a sua posição.
3.       Discussão de cada teoria da filosofia. Por exemplo, uma aula para cada uma.
Aqui poderia continuar a apresentar sugestões de trabalho. Desde como se apresentam refutações, etc. O aluno pode pesquisar nos materiais de aula (manual, sites de internet, etc… ).

Mais uma vez não tenho aqui preocupações de fundo no elenco que apresento de estratégias, mas espero com este modelo, que se perceba a minha proposta. Para cada página de conteúdos, 10 de estratégias. E por que razão defendo isto? Por uma razão simples. Com 10 páginas de conteúdos o professor vai passar as aulas a expor matéria. Com 10 páginas de estratégias, o aluno vai passar as aulas com tarefas delimitadas e a trabalhar. Por conseguinte, a progredir. E o professor consegue trabalhar melhor e gestão não só do programa como das aulas e das aprendizagens.
Vou então detalhar um pouco quanto aos conteúdos e usar o trabalho do Aires como base:

10º ano



Alterações:
Como já referi, alteraria o primeiro módulo. Provavelmente teria de alterar também os tempos de lecionação. Mas todo o primeiro módulo seria o da apresentação da lógica como referi acima. E, claro, aumentaria os tempos letivos nesta unidade para poder trabalhar textos pequenos para alunos de 15 anos, mas textos de filósofos nos quais se tenha de trabalhar premissas, conclusão, defesa de teorias, etc… as outras unidades que aparecem neste quadro, não as alteraria.


Acho aceitável a mudança da Estética e Religião para o 11º ano. A vantagem que vejo é a da gestão do tempo de lecionação do programa. Mas alteraria substancialmente a unidade VI. Ao contrário do que sugere o Aires estas aulas deviam ser destinadas a:

1º aprender como se redige um pequeno ensaio
2º Distribuir bibliografia (pequenos textos de 20 pp a cada aluno)
3º Oficina de redação do ensaio
4º Apresentação oral individual de todos os ensaios

A redação do ensaio é já proposta no programa. A vantagem de aprenderem a redigir pequenos ensaios é enorme. Além de aprenderem a defender ideias e teorias, dão os primeiros passos para elaborarem trabalhos académicos como pequenos artigos. Em vez daqueles trabalhos sem pés nem cabeça em que mais ou menos o aluno acaba a copiar qualquer coisa do google e colocar uma capa, índice, bibliografia, etc…, coisa que já nem sequer se usa em lado algum, estas últimas aulas (que tem de ser mais de 8) destinavam-se a criar uma oficina na qual os alunos estão a elaborar os seus próprios ensaios de 2 páginas no máximo. Como fazer isto num manual? Não se faz. Mas os editores podem preparar bibliografias pequenas que ajudem os alunos a decidir. Por exemplo, os alunos podem servir-se de livros como os de Nigel Warburton e fazer um ensaio de filosofia da religião a partir do capítulo sobre Deus. Tenho ideias concretas neste ponto, pois é assim que trabalho, mas não me vou alongar mais, pois o que pretendo aqui é deixar algumas sugestões práticas para a reforma de um programa de filosofia. Além disso este ensaio teria ajudado imensos alunos a fazer a última questão do último grupo do mais recente Exame Nacional de Filosofia. No final do ano é já desejável que os alunos consigam defender as suas ideias sobre alguns problemas da filosofia.

11º ano









                         Como disse não tive a preocupação do Aires em fazer a contagem das aulas, pelo que algumas coisas que aqui vou apontando poderiam cair por terra (a verdade é que todas vão cair pois eu nada decido sobre programas). Mas mesmo assim, seguindo a minha proposta, toda a primeira unidade desaparecia do programa do 11º ano. Sempre defendi que a filosofia da mente seria interessante, pelo que a introdução de alguns problemas desta área de forma direta (e não indireta como o caso do problema do livre-arbítrio que aparece na introdução aos valores e ação humana) talvez não fosse de descartar. O que menos me agrada nesta proposta do Aires é a última unidade. A ideia do tema livre deve ser substituída, uma vez mais, talvez, pela minha ideia já aplicada no 10º ano. O aluno no final do ano deve mostrar que é capaz de defender publicamente ideias. E isso pode fazer-se com a oficina de filosofia e a elaboração dos ensaios. Não referi ainda, mas o ensaio deve ser matéria de avaliação tal como qualquer outro teste e deve ter o mesmo peso na avaliação final. Por isso o ensaio elaborado no 10º ano pode ser aqui retomado e reelaborado sem qualquer prejuízo. Isto dá uma liberdade enorme aos alunos. E aprendem enquanto fazem as coisas que é muito mais interessante que ouvir o tempo todo e depois terem de passar horas a fio a ler tudo o que ouviram no sentido de tentar não esquecer para o teste.

Uma palavra final
Sei que estes apontamentos são ainda uma proposta em muitos aspetos vaga. E sei que o Aires justificou muito melhor os conteúdos. Porque, nos seus aspetos mais gerais, até concordo com as justificações do Aires, procurei aqui explorar mais como é que se pode explorar um programa de filosofia e executá-lo.
Não acho que um programa tenha de ser um documento muito complexo ou profundo. Profundos são os conteúdos. Um programa é um guia e deve ser de fácil leitura e muito pragmático. Afinal de contas os professores não passam o ano a olhar para o programa. Os professores olham para os manuais e restante material de apoio às aulas. E o programa deve ser um guia que permita que todos esses materiais possam ser elaborados com rigor.

Espero que esta proposta possa, sei lá como, contribuir pelo menos para alguma discussão pois, como muito bem referiu o Aires, já que está em discussão eu devo também discutir porque sou parte interessada. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Será moralmente aceitável cobrar mais impostos ao que ganha o Ronaldo?

Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o seu clube. Passa a ganhar cerca de 2 milhões de euros de salário por ano. Será moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30 minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel. (se as legendas não arrancarem podem ser ativas no menú em definições)


terça-feira, 1 de novembro de 2016