sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Qual a diferença entre determinismo moderado (compatibilismo) e libertismo?

A diferença explica-se pelo critério da liberdade de escolha (condição do livre arbítrio)

Teoria
Critério diferenciador
Incompatibilista





Libertismo



Ausência de causalidade. O determinismo causal não se aplica à nossa capacidade de escolha
Compatibilista


Determinismo moderado
Ausência de coação, mas não de causalidade. As nossas ações estão causalmente determinadas, mas desde que não exista coação, doença ou qualquer tipo de controlo artificial, ainda assim temos capacidade de escolha.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Definir conceitos, espírito crítico e liberdade de pensamento

Um texto meu publicado no FN. AQUI


Propostas de reformulação de programa de filosofia

Este post serve para criar links às propostas que entretanto vão chegando às redes e canais online. Entretanto por erro meu publiquei duas vezes a minha proposta e acabei a eliminar sem querer um comentário com uma proposta de um colega e não consegui recuperar o comentário. Peço desculpa por isso. Foi sem intenção, pois todos os comentários são preciosos. Sem isso não conseguimos maior clareza nas nossas próprias propostas, pois é impossível, na minha opinião, elaborar uma qualquer proposta sem o reconhecimento de quem executa os programas de ensino, os professores.

Proposta do Domingos Faria, AQUI
Proposta do Aires Almeida, AQUI
Proposta de Rolando Almeida, AQUI

Assim que chegarem, mais propostas serão adicionadas.

Participação pública informal na reforma do programa de Filosofia

Alguns professores de filosofia têm manifestado nas redes sociais ou nos fóruns ideias interessantes para a abordagem a uma eventual reformulação do programa de filosofia. Muitos desses colegas não disponibilizam canais para publicarem as suas ideias. Assim, disponibilizo este blogue para quem quiser publicar a sua proposta. Assim, promovemos o debate mais alargado enquanto continuamos as nossas vidas particulares. Peço apenas que me enviem para o meu email os vossos textos para publicar com o respetivo nome de autor. Não há qualquer requisito de formatação de texto.

Email: rolandotavaresalmeida@gmail.com

domingo, 20 de novembro de 2016

Uma proposta para reformulação do programa de filosofia

Recentemente saiu uma notícia no Jornal Público sobre uma eventual revisão curricular dos ensinos básico e secundário. Segundo foi noticiado o principal objetivo é dar razão a uma velha reivindicação dos professores encurtando os conteúdos a explorar nos currículos das diversas disciplinas. O lado menos bom da notícia citada é que algumas entidades oficiais com responsabilidade na matéria estariam a ser ignoradas pelo Ministério. Ora discordo que o Ministério decida sobre um programa ignorando quer as associações instituídas ao nível científico, quer profissional. Por isso mesmo um programa elaborado ou reformulado por apenas uma parte é, quanto a mim, uma péssima ideia. Mas mantenho a esperança que as coisas não se passem a esse nível e espero também que o resultado de uma revisão do programa de filosofia seja o resultado do diálogo entre quem melhor representa os professores e quem representa a disciplina academicamente. Neste momento as instituições melhor posicionadas para esse efeito na disciplina de filosofia são a APF e a SPF.
Pressupondo que os professores gostam e querem ser ouvidos nesta matéria, enquanto professor quero deixar a minha proposta. Ela é apenas uma ideia, feita com o tempo de que disponho e vai ser montada sobre a proposta que Aires Almeida fez aqui. Portanto vou trabalhar a partir do programa e da proposta do Aires.

Algumas ideias para começar.
Reformular em vez de destruir o trabalho feito
Não defendo que se deva fazer um programa novo. O programa atual tem pontos positivos e outros que podem ser melhorados. E esta vai ser a linha condutora para a minha breve apresentação.

Pontos a manter no programa:
O programa de filosofia é elaborado em torno de problemas e não de filósofos ou filosofias. E assim deve ser mantido. Por um lado dá alguma liberdade ao professor, o que é sempre de esperar num programa de ensino, pelo menos de filosofia. Por outro lado, o que interessa na filosofia são mais os problemas e não propriamente a exposição das teorias dos autores, ainda que não se satisfaça a primeira condição com a ausência da segunda.

Pontos a reformular no programa:
Em primeiro lugar parece-me urgente depurar toda a terminologia do programa. E tenho uma razão para assim pensar. É que a linguagem do programa é transportada para os manuais, já que os mesmos seguem naturalmente o programa. Ora, o indice dos manuais, diz-me a experiência, é ilegível para os alunos e perdemos imenso tempo a traduzir. Ou então ignoramos. Não há qualquer vantagem em traduzir. Se podemos chamar as coisas com outros nomes e com o mesmo rigor, porque não adotar essa segunda opção com a preocupação de tornar a tábua das matérias mais legível para os alunos? Dou aqui apenas alguns exemplos:

Como aparece no programa
Proposta de substituição
Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar
O que é a filosofia?
Dimensão discursiva do trabalho filosófico
Caixa de ferramentas da filosofia
A ação humana – Análise e compreensão do agir
Filosofia da ação
Os valores – Análise e compreensão da experiência valorativa
Os valores
Valores e valoração- A questão dos critérios valorativos
O problema da objetividade de juízos de valor
A dimensão ética-política – Análise e compreensão da experiência convivencial
Filosofia política
Temas/ problemas do mundo contemporâneo
Problemas da filosofia

O quadro que apresento é apenas uma demonstração da depuração que pode ser feita. Estou convencido que tem amplas vantagens didáticas sem com isso criar qualquer prejuízo científico. Bem pelo contrário. E outra opção que me parece ser igualmente válida é apresentar os conteúdos como problemas. Assim, em vez de filosofia da ação, poderia constar: O que é uma ação? Ou, Será que todos os acontecimentos são ações? Bem mas ainda assim, isto pode ser igualmente feito mesmo com a proposta que apresento no quadro, já que um tema da filosofia pode ser apresentado com diferentes problemas.
Em relação à proposta do Aires, uma alteração de fundo. A lógica desaparece do 11º ano e desaparece grandemente de todo o programa da disciplina. Só faz sentido ensinar lógica como o Aires propõe se depois ela for aplicada ao longo de todo o programa. Mas a avaliar pelos manuais isso quase nunca acontece. O que me leva a pensar que uma grande maioria dos professores não tem optado por ensinar filosofia da ciência ou do conhecimento no 11º ano com as bases da lógica. E aqui penso que não vale a pena apresentar um programa que só num ponto varre a maré toda. Depois há outro ponto que me parece crucial. Vamos considerar que o professor pode ajustar mais ou menos a lógica que o aluno aprende ao restante programa. E penso que esse deve ser o efeito do ensino da lógica, caso contrário, empobrece o seu próprio ensino. Mesmo que um professor tenha essa opção, como faz no 10º ano? Ensina filosofia da arte, religião, ação sem esses conhecimentos e aplicação da lógica e depois no 11º ano passa a usar essa ferramenta? Ou seja, ou a lógica aparece logo na tal “dimensão discursiva do trabalho filosófico” no 10º ano ou não aparece em lado algum quer do 10º, quer do 11º ou então, em última análise e que me parece ser a pior das possibilidades, aparece apenas como mera curiosidade e para fornecer ao estudante algum conhecimento de como se faz filosofia. Posto isto, qual a minha proposta?
A minha proposta é que a lógica saia do programa de filosofia, para dar lugar no 10º ano, a uma pequena introdução à metodologia filosófica que pode e deve incluir breves noções de lógica. Nessas breves noções, o que deve ser incluído? Vou elencar aqui, sem grandes preocupações de fundo, o que me parece mais universal e essencial:

·         O que é um argumento?
·         Identificar argumentos
·         Composição de um argumento
·         Premissas e conclusão
·         Lógica formal e informal – validade dedutiva e indutiva
·         Validade e verdade
·         Validade
·         Solidez
·         Cogência
·         Refutações
·         Definição de conceitos e sua importância (vagueza e precisão)

Esta alteração implica já uma reformulação quer ao programa, quer à proposta do Aires. Talvez o requisito mais rígido que proponho para esta reforma seja o de que todo o programa, quer de 10º, quer de 11º tem de andar em torno desta ideia:

1.       Apresentação de problemas
2.       Defesa de teorias
3.       Discussão de argumentos

Um aspeto que a proposta do Aires não refere é a capacidade de execução didática do programa. Nem o programa é muito centrado nessa preocupação. Se por um lado é verdade que esse é o trabalho que os professores desenvolvem nos grupos disciplinares, também é verdade que o programa se pode centrar aí. Afinal o que se pretende de um programa não é somente o que se quer ensinar, mas a forma como se aprende o que se pretende ensinar. Vou tentar aqui esboçar um pequeno exemplo:
Unidade: Filosofia da Arte
Problema: Pode a arte ser definida?
Estratégias a seguir
Conteúdos a explorar:
·         Teoria da imitação e refutações
·         Teoria da expressão e refutações
·         Teoria formalista e refutações
1.       Apresentação do problema
2.       Tentativa de encontrar soluções para o problema com a discussão das teorias propostas pelos alunos. Como podem os alunos propor teorias?
·         Trabalho de grupo (20m de discussão)
·         Discussão individual (45 m)
·         Cada aluno tenta individualmente e em 20 m escrever uma resposta ao problema elencando sempre as razões que justificam a sua posição.
3.       Discussão de cada teoria da filosofia. Por exemplo, uma aula para cada uma.
Aqui poderia continuar a apresentar sugestões de trabalho. Desde como se apresentam refutações, etc. O aluno pode pesquisar nos materiais de aula (manual, sites de internet, etc… ).

Mais uma vez não tenho aqui preocupações de fundo no elenco que apresento de estratégias, mas espero com este modelo, que se perceba a minha proposta. Para cada página de conteúdos, 10 de estratégias. E por que razão defendo isto? Por uma razão simples. Com 10 páginas de conteúdos o professor vai passar as aulas a expor matéria. Com 10 páginas de estratégias, o aluno vai passar as aulas com tarefas delimitadas e a trabalhar. Por conseguinte, a progredir. E o professor consegue trabalhar melhor e gestão não só do programa como das aulas e das aprendizagens.
Vou então detalhar um pouco quanto aos conteúdos e usar o trabalho do Aires como base:

10º ano



Alterações:
Como já referi, alteraria o primeiro módulo. Provavelmente teria de alterar também os tempos de lecionação. Mas todo o primeiro módulo seria o da apresentação da lógica como referi acima. E, claro, aumentaria os tempos letivos nesta unidade para poder trabalhar textos pequenos para alunos de 15 anos, mas textos de filósofos nos quais se tenha de trabalhar premissas, conclusão, defesa de teorias, etc… as outras unidades que aparecem neste quadro, não as alteraria.


Acho aceitável a mudança da Estética e Religião para o 11º ano. A vantagem que vejo é a da gestão do tempo de lecionação do programa. Mas alteraria substancialmente a unidade VI. Ao contrário do que sugere o Aires estas aulas deviam ser destinadas a:

1º aprender como se redige um pequeno ensaio
2º Distribuir bibliografia (pequenos textos de 20 pp a cada aluno)
3º Oficina de redação do ensaio
4º Apresentação oral individual de todos os ensaios

A redação do ensaio é já proposta no programa. A vantagem de aprenderem a redigir pequenos ensaios é enorme. Além de aprenderem a defender ideias e teorias, dão os primeiros passos para elaborarem trabalhos académicos como pequenos artigos. Em vez daqueles trabalhos sem pés nem cabeça em que mais ou menos o aluno acaba a copiar qualquer coisa do google e colocar uma capa, índice, bibliografia, etc…, coisa que já nem sequer se usa em lado algum, estas últimas aulas (que tem de ser mais de 8) destinavam-se a criar uma oficina na qual os alunos estão a elaborar os seus próprios ensaios de 2 páginas no máximo. Como fazer isto num manual? Não se faz. Mas os editores podem preparar bibliografias pequenas que ajudem os alunos a decidir. Por exemplo, os alunos podem servir-se de livros como os de Nigel Warburton e fazer um ensaio de filosofia da religião a partir do capítulo sobre Deus. Tenho ideias concretas neste ponto, pois é assim que trabalho, mas não me vou alongar mais, pois o que pretendo aqui é deixar algumas sugestões práticas para a reforma de um programa de filosofia. Além disso este ensaio teria ajudado imensos alunos a fazer a última questão do último grupo do mais recente Exame Nacional de Filosofia. No final do ano é já desejável que os alunos consigam defender as suas ideias sobre alguns problemas da filosofia.

11º ano









                         Como disse não tive a preocupação do Aires em fazer a contagem das aulas, pelo que algumas coisas que aqui vou apontando poderiam cair por terra (a verdade é que todas vão cair pois eu nada decido sobre programas). Mas mesmo assim, seguindo a minha proposta, toda a primeira unidade desaparecia do programa do 11º ano. Sempre defendi que a filosofia da mente seria interessante, pelo que a introdução de alguns problemas desta área de forma direta (e não indireta como o caso do problema do livre-arbítrio que aparece na introdução aos valores e ação humana) talvez não fosse de descartar. O que menos me agrada nesta proposta do Aires é a última unidade. A ideia do tema livre deve ser substituída, uma vez mais, talvez, pela minha ideia já aplicada no 10º ano. O aluno no final do ano deve mostrar que é capaz de defender publicamente ideias. E isso pode fazer-se com a oficina de filosofia e a elaboração dos ensaios. Não referi ainda, mas o ensaio deve ser matéria de avaliação tal como qualquer outro teste e deve ter o mesmo peso na avaliação final. Por isso o ensaio elaborado no 10º ano pode ser aqui retomado e reelaborado sem qualquer prejuízo. Isto dá uma liberdade enorme aos alunos. E aprendem enquanto fazem as coisas que é muito mais interessante que ouvir o tempo todo e depois terem de passar horas a fio a ler tudo o que ouviram no sentido de tentar não esquecer para o teste.

Uma palavra final
Sei que estes apontamentos são ainda uma proposta em muitos aspetos vaga. E sei que o Aires justificou muito melhor os conteúdos. Porque, nos seus aspetos mais gerais, até concordo com as justificações do Aires, procurei aqui explorar mais como é que se pode explorar um programa de filosofia e executá-lo.
Não acho que um programa tenha de ser um documento muito complexo ou profundo. Profundos são os conteúdos. Um programa é um guia e deve ser de fácil leitura e muito pragmático. Afinal de contas os professores não passam o ano a olhar para o programa. Os professores olham para os manuais e restante material de apoio às aulas. E o programa deve ser um guia que permita que todos esses materiais possam ser elaborados com rigor.

Espero que esta proposta possa, sei lá como, contribuir pelo menos para alguma discussão pois, como muito bem referiu o Aires, já que está em discussão eu devo também discutir porque sou parte interessada. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Será moralmente aceitável cobrar mais impostos ao que ganha o Ronaldo?

Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o seu clube. Passa a ganhar cerca de 2 milhões de euros de salário por ano. Será moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30 minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel. (se as legendas não arrancarem podem ser ativas no menú em definições)


terça-feira, 1 de novembro de 2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Ação de formação para professores


Decorre entre 17 e 24 de outubro as inscrições para a seguinte ação de formação:
– “Argumentação e pensamento crítico na sala de aula como estratégia de resolver conflitos”, dinamizada pelo formador Rolando Almeida, com a duração de 12 horas, a aguardar validação pela DRE, tendo como destinatários os docentes de todos os grupos de recrutamento.
As inscrições decorrerão online, a partir das 09h00, do dia 17/10, AQUI ou na sede do Centro de Formação do SPM.
Aproveitamos para dar conta da seguinte informação: a 1ª. prioridade de seleção abrange os sócios do SPM (gratuito) e a 2ª. prioridade de seleção abrange os não sócios = 15€ (mediante vaga)

A ação de formação terá lugar na sede do SPM – Calçada da Cabouqueira nº 22, Funchal.

domingo, 16 de outubro de 2016

Cogência

Algumas vezes surgem confusões ligadas a esta noção da argumentação filosófica. Um argumento é cogente quando, além de válido e com premissas verdadeiras, persuade racionalmente, ou seja, é convincente.

A objeção mais habitual é que não faz sentido falar em tal coisa, pois em filosofia não há argumentos cogentes.

Claro que há! Um argumento é filosoficamente cogente se as premissas forem mais plausíveis do que a conclusão, isto é, se nos levarem a aceitar uma conclusão que desconhecíamos.   

Diz-nos a noção de validade que um argumento é dedutivamente válido se em nenhuma das circunstâncias de verdade possíveis as premissas do argumento não possam ser verdadeiras e a conclusão falsa.                                          
                                                                                                        
Eis um exemplo de dedução válida:
A neve é branca e a relva verde
A relva é verde
Logo, a neve é branca
Este é um argumento válido e com premissas verdadeiras. Significa isto que é sólido. Mas facilmente percebemos que a solidez não parece ser uma noção suficiente, apesar de necessária, para persuadir alguém com um argumento. Isto porque em filosofia temos premissas muito discutíveis. E, apesar de serem muito discutíveis, tal não significa que não nos possam fazer aceitar uma conclusão que, à partida, não estaríamos dispostos a aceitar, não fossem aquelas premissas. Se as premissas forem mais plausíveis que a conclusão, acabamos por aceitar uma conclusão que à partida não defenderíamos. Isto é a cogência.

O exemplo dado não é um exemplo de cogência, pois na cogência o que queremos mostrar é que alguém não pode defender uma tese partindo de determinadas premissas, ou seja, que aquilo que já aceita 
 as premissas  implica necessariamente a conclusão que não quer aceitar e que nós defendemos.

Assim, a definição de cogência é operacional para nos permitir compreender que não desejamos somente argumentos sólidos, mas, além disso, que convençam.

Podemos ter argumentos sólidos, mas que não são persuasivamente fortes, necessitando de explicações adicionais para que se tornem convincentes. E daí a cogência.

A cogência é igualmente aplicável a argumentos quer dedutivos quer indutivos. Nestes últimos, um argumento cogente não aponta necessariamente para uma conclusão verdadeira, mas é muitíssimo provável que o seja.

A cogência vai mais além da mera sintaxe do argumento e é uma noção interessante precisamente quando não sabemos determinar a verdade das proposições. Claro que não precisamos de saber se as premissas de um argumento são verdadeiras ou falsas para saber se é válido. Precisamos apenas de saber que, se as premissas forem verdadeiras em alguma simulação de verdade, a conclusão não poderá ser falsa nessa mesma circunstância. Para saber isso, podemos aplicar um inspetor de circunstâncias.
Mas, ainda assim, temos muitos argumentos perfeitamente válidos que não são persuasivos. Daí a importância da solidez. O problema é que nem sempre é fácil determinar a solidez de um argumento, pois nem sempre sabemos da verdade das premissas. Assim, falamos de cogência do argumento, isto é, da plausibilidade das premissas para apoiar determinada conclusão. 
 
Publicado originalmente Aqui

sábado, 15 de outubro de 2016

Filosofia da Religião, em antologia de luxo


Deus está filosoficamente vivo e bem vivo. Que o diga a filosofia analítica contemporânea que ressuscitou a filosofia da religião com um vigor nunca antes alcançado. Para muitas pessoas ligadas á filosofia isso é surpreendente, já que erradamente viam na abordagem analítica pouco mais que artifício e formalismo técnico de análise da linguagem. A prova de que as coisas não são bem assim é o volume que aqui apresento. É impressionante a qualidade intelectual do que se produziu nos últimos 50 anos sobre filosofia da religião. Filosofia das Religiões, Uma Antologia, é a tradução da edição de 2003 de Philosophy of Religion, An Anthology, da Blackwell, uma editora com grande tradição e empenho na edição deste tipo de obras. Aliás, editoras académicas em regra publicam com alguma regularidade obras do género. Estes volumes são uma espécie de best of de uma área de estudos, autor ou problema. São volumes extensos e que compilam textos dispersos, clássicos ou contemporâneos, mas, no caso da filosofia (e creio que nas outras áreas é o mesmo) que sejam relevantes no debate contemporâneo. Mas vamos ao interior. Deparamo-nos com duas pequenas dificuldades na edição portuguesa e que o editor pode melhorar em futuras edições. A primeira é que o índice vem no final. É um pouco discutível esta opção, mas num livro tão volumoso (a edição portuguesa é mais extensa que o original com mais de 800 páginas) e cuja finalidade é em grande parte a consulta, o índice no início facilita o manuseio e apresenta logo a tábua dos artigos. A segunda é que a edição portuguesa não apresenta no índice o nome do autor de cada artigo. Temos de abrir cada artigo na página correspondente para, aí sim, verificar quem é o autor do artigo. Isto dificulta bastante, pois a procura de um artigo pode também ser feita pelo autor e, como está, torna-se bastante menos prática essa busca. Não tenho o original para comparar, mas, à parte isto e uma pequena introdução dos autores compiladores, nada mais é apresentado. Creio que aqui segue o original, muito embora todas as antologias da Blackwell que possuo em língua inglesa apresentam um pequeno Index. Nesta edição portuguesa não aparece tal Index. Não posso confirmar se tal aparece na edição original, mas tratando-se de um livro de estudo e fortemente dirigido a um público académico, este tipo de ferramentas revela-se quase sempre de enorme utilidade, já que em tanta página os atalhos facilitam bastante.
O livro é organizado em 8 partes.
Parte 1: A identidade religiosa
Três artigos a abrir a antologia, que acabam por constituir uma apresentação do fenómeno religioso. O que faz com que uma crença religiosa seja religiosa e distinta de outras crenças? Quais as principais crenças religiosas?
Parte 2: Teísmo e atributos divinos
Nesta parte, que arranca com um famoso artigo de Richard Swinburne, “God” (1996), explora-se as principais características e atributos de Deus, entre outras como, as de omnipotência e omnisciência.
Parte 3: Explicações de religião
O início desta parte é empolgante. Em poucas páginas 3 autores disputam a partir de uma parábola, o estatuto da crença religiosa. São eles Anthony Flew, R. M. Hare e Basil Mitchell. E já que estamos na parte das explicações da religião ou religiões, então é ocasião para explorar o que tem a psicologia a dizer sobre o problema. A inclusão desta parte é interessante já que, na minha opinião pessoal, tornar-se-ia incompleta sem a apresentação desta abordagem pois parece que a crença religiosa tem uma forte componente psicológica. É aqui também, como de resto seria de esperar, que Freud é abordado, em pelo menos 2 artigos. Mas também é nesta parte que se aborda o relevante problema da ética da crença, com um artigo do já traduzido entre nós, William Clifford (Ética da Crença, Org. Desidério Murcho, Bizâncio, 2010). Mas também é nesta parte que temos a defesa da crença religiosa como apropriadamente básica, na conhecida formulação de Alvin Plantinga.
Parte 4: Argumentos teístas
Nesta parte discute-se a apresentam-se os principais argumentos de justificação da existência de Deus. A novidade aqui é que são apresentados, cada um deles, num artigo diferente. Duas entradas para Swinburne e Mackie com o argumento cosmológico. E, com uma falha da tradução, o argumento teleológico de David Hume (e não teológico). Ainda são explorados em artigos diferentes, o ontológico e do desígnio.
Parte 5: Religiões não teístas
Confesso que é para mim a parte mais estranha, já que não tenho grande conhecimento nesta matéria e ainda não explorei convenientemente os artigos aqui incluídos. Mas temos 4 artigos que apresentam perspetivas budistas, feministas, Darsana, Anviksiki, entre outras. A explorar.
Parte 6: Coisas más e coisas boas
Como seria de esperar, o problema do mal explorado em 8 artigos. Para citar os mais relevantes encontramos aqui artigos de William Rowe (do qual já temos traduzida a excelente Introdução à filosofia da Religião, Verbo, Trad. Vitor Guerreiro), Brian Davies e Peter Van Inwagen.
Parte 7: Os valores religiosos
Esta parte pode interessar aos professores do secundário já que a bibliografia para abordar este tema é, em regra, escassa e difusa, muitas das vezes mesmo inapropriada à finalidade que se destina. Há aqui, portanto, um recurso indesculpável. Encontramos os problemas comuns: o problema da tolerância religiosa, religião e moralidade, pluralismo religioso, etc. Encontramos também o artigo de Swinburne “A possibilidade da encarnação” que tem sido divulgado entre nós por Domingos Faria. Espaço ainda também para a famosa “aposta” de Pascal.
Parte 8: Identidade Pessoal e morte
Finalmente, um típico problema associado às religiões, o da morte e dos milagres. Dos 5 artigos incluídos, um é de um dos organizadores desta antologia, Taliaferro e foi incluído também o texto de David Hume sobre os milagres, incluído ao seu ensaio de Investigação Sobre o Entendimento Humano.
Conclusão da análise
A quem se destina esta antologia? Fortemente a estudantes universitários. Mas também a professores do ensino secundário e ainda a curiosos que gostem de aprender lendo. Para estes últimos o livro tem a vantagem de conter artigos de autores experientes numa escrita clara. Para além disso o mero curioso, leitor sem formação em filosofia, tem aqui uma rica apresentação do problema do fenómeno religioso, exposto sob muitas variantes.
Como é habitual neste tipo de artigos incluídos em antologias académicas, no final de cada artigo, em regra, é apresentada não só uma bibliografia geral, como uma recomendada para aprofundar o tema ou problema apresentado no artigo.
Uma nota final. Muitas vezes em países academicamente mais pequenos como Portugal, os problemas da religião são abordados apenas pela Religião católica e Cristã, o que acaba por afastar o interesse de muitas pessoas, já que se habituam a associar estes problemas apenas ao interesse das instituições religiosas. Independentemente do mérito ou desmérito do trabalho dessas instituições é fundamental perceber que a análise do fenómeno religioso está muito para além da instituição religiosa. Ele é um tema amplo de estudos filosóficos e científicos. A publicação e divulgação deste tipo de obras entre nós (principalmente entre nós) é um bom sinal para arrancar a filosofia desse espectro e devolvê-la ao exercício crítico que tão bem a caracteriza na busca da verdade.

Charles Taliaferro e Paul J. Griffiths, Filosofia das Religiões, Uma antologia, Tradução de Luís Couceiro Feio, Editora Piaget, 2006


Esta obra pode ser comprada AQUI
Agradeço à Editora Piaget o envio deste livros para análise e divulgação.